domingo, 5 de maio de 2013

Crimes brutais, mortes coletivas e as reações do público e das autoridades



Quando um crime ou uma tragédia chocam o público, surgem as mais diversas reações, inclusive tentativas de análise sob a ótica filosófica e religiosa (incluindo a espírita).
O mais recente desses casos foi o assassinato da dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, no dia 25 de abril. Ela foi assaltada no consultório, feita de refém até que os bandidos pudessem sacar o dinheiro de sua conta, e queimada viva após a quadrilha perceber que ela tinha apenas trinta reais na conta bancária.
As reações começaram, com a polícia fazendo a captura dos assassinos uma questão de honra, e  a declaração do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin sobre a diminuição da maioridade penal (e da agitação dos grupos favoráveis à pena de morte, vendo uma oportunidade para propor a alteração da Constituição para que esse tipo de condenação seja aprovado).
Há, é claro, aqueles que não se deixam levar pelo momento e têm um posicionamento contrário às duas teses.
Pelos comentários na imprensa, a dentista pode vir a se tornar, dentro do meio católico, mais uma candidata a santa, devido ao seu caráter e à forma como morreu.
E sob a ótica espírita?
Alguns poderão pensar que ela resgatou algo de encarnações passadas, pela forma como morreu. Hipoteticamente, não estariam errados, mas seria pouco caridoso com ela, seus familiares e amigos, imaginando-a como um monstro em outras encarnações, talvez um inquisidor que levou à fogueira milhares de pessoas acusadas de heresia.
Outro cenário possível seria o de alguém que passou por uma prova, e não uma expiação, a fim de acelerar sua evolução. Para que fim, no nosso mundo? Talvez para provocar o tipo de discussão que está se desenrolando neste momento. Mas se é esse o fim, acredito que ela não gostaria de se tornar uma mártir da volta da pena de morte. Uma charge, encontrada no Facebook, retrata bem o dilema:
uma criança pobre sonha com um uniforme escolar enquanto o governador Alckmin banca o alfaiate, que toma as medidas do garoto pensando no uniforme de presidiário dele.
Existe, porém, um outro componente a se considerar: o livre arbítrio. Tanto de quem ateou o fogo como o da dentista, agora na espiritualidade. A quadrilha poderia ter deixado pra lá, ou ter dado, talvez, um tapa e ameaçado a dentista, deixando-a viva, em vez de matá-la. Isso geraria um trauma, certamente, mas algo que poderia ser trabalhado nesta encarnação. Em vez disso, todos os que participaram do crime têm agora uma carga expiatória pesada a aliviar, de acordo com o grau de envolvimento e o sentimento sobre o ocorrido. Se tiver surgido um princípio de arrependimento, essa pessoa começará a trilhar essa via mais rapidamente.
Mas porque da dentista também?
Ela implorou pela sua vida aos bandidos. Aparentemente, não estava preparada para morrer, como os mártires cristãos. Então, há algumas possibilidades de envolvimento com a situação e com seus algozes, de acordo com a visão espírita. Algumas nada agradáveis.
A pior, ou talvez uma alternativa muito ruim, é ela se revoltar com a forma como foi morta e passar a obsediar seus assassinos. Isso levaria a séculos de ajustes e tentativas de reconciliação nas diversas encarnações subsequentes, obtendo um grau relativo de sucesso ou fracasso. Essa revolta a levaria ao umbral, onde se afinaria com outros inimigos deles e poderá atrasar em muito a sua evolução espiritual.
Ela poderá, também, após algum esclarecimento, rapidamente se recuperar do desencarne traumático, e se for tão boa pessoa quanto os depoimentos na imprensa pintam, poderá superar o acontecido. Eventuais acessos de mágoa e tristeza poderão advir, mas o ódio poderá ser controlado de maneira a mantê-la em uma colônia parecida com Nosso Lar sem problemas. Ela poderá, em encarnações futuras, desenvolver fobias relacionadas com a forma como desencarnou nesta. Há exemplos disso na obra Reencarnação no Brasil, de Hernani Guimarães Andrade.
Caso ela realmente tenha escolhido como prova ter uma morte violenta e dolorosa e obtiver sucesso,   ela pode vir a ajudar os espíritos protetores dos criminosos, incentivando-os a iniciarem sua reforma íntima.
Todas essas considerações não invalidam o dever de investigar, prender, julgar, condenar e fazer cumprir a pena aos bandidos. Como Jesus disse, “é preciso que hajam escândalos, mas ai daquele por quem vem o escândalo.” Casos como esse, veiculados pela mídia, podem ter o efeito de amortecer os nossos sentimentos, mas podem fazer com que a sociedade mude para melhor, em vários níveis.
A polícia, por exemplo, pode se sentir estimulada a ser mais eficiente na resolução dos casos. Aqueles que forem corruptos podem começar a se perguntar se não podem se redimir e tornar o bairro, a cidade onde trabalham e moram mais seguro e menos violento.
Considero que as reflexões acima são válidas tanto para os crimes onde há algumas poucas vítimas diretas (sim, porque existem as indiretas, como vemos no noticiário – testemunhas do crime, parentes, amigos, colegas de trabalho e de escola, vizinhos e todos aqueles que tomam conhecimento do fato).
Mas e quando há um número maior de vítimas, cujos desencarnes foram provocados intencionalmente ou não – as chamadas mortes coletivas?
O incêndio na boate de Santa Maria, no início do ano, também levantou várias questões. Se falou da imprudência da banda que soltou os rojões que causaram o incêndio, da ganância dos donos do estabelecimento, da ineficiência dos agentes fiscalizadores e até da possível corrupção envolvida para deixar passar as irregularidades na construção.
Mas as medidas de segurança foram bastante debatidas, sugeriu-se um endurecimento na legislação pertinente e as pessoas ficaram mais atentas ao assunto, que muitas vezes passa despercebido, até que seja tarde demais.
Falou-se também na falta de pessoal para realizar o trabalho necessário. Algumas das vítimas do incêndio certamente são conhecidos dos fiscais que, se receberam propina – e não estou afirmando isso, apenas levantando uma hipótese – podem ter se arrependido e iniciado um processo de reforma íntima que no final das contas será muito salutar.
Eu, particularmente, pensei em propor através das redes sociais uma campanha para tornar o crime de corrupção hediondo, assim como o sequestro. Por que?
Se levarmos às últimas consequências, um corrupto é um genocida, assim como Hitler. As obras superfaturadas, as propinas e favores políticos custam vidas que poderiam ser poupadas ou prolongadas com boa qualidade. Mais escolas, hospitais e obras de infraestrutura seriam feitos. Não teríamos edifícios desabando por ter sido construídos com material inapropriado, ou boates incendiadas ou desabamento de pessoas em um culto evangélico se fiscais suficientes fizessem seu trabalho bem e honestamente.
Também não teríamos tantas mortes no trânsito porque guardas rodoviários receberam “uma cervejinha” pra não passar uma multa por excesso de velocidade ou embriaguez – ou ambos. E não teríamos tantas manchetes de policiais bandidos – da formação de quadrilha com assaltantes de bancos a assassinos de aluguel, ou cúmplices de assassinato.
Não haveria notícias sobre hospitais públicos superlotados, sem médicos, com equipamentos obsoletos. Não haveria professores em greve todo ano por melhores salários e melhores condições de educação.
Esse foi, é claro, um caso acidental que gerou tais consequências e reflexões no decorrer das semanas em que o incêndio foi manchete. E quando as mortes são intencionais, como no recente atentado terrorista durante a Maratona de Boston, onde três pessoas morreram e centenas ficaram feridas? E o que dizer da Columbine brasileira, em 2011, quando  um rapaz de 23 anos entrou em uma escola no Rio de Janeiro e atirou contra os alunos? Houve um total de 29 vítimas diretas? Qual é a responsabilidade deles?
Um simples endurecimento no Código Penal não resolve casos como esses. Há reflexões mais profundas que nós, como membros da sociedade, precisamos fazer. Conhecimentos que devemos adquirir para reconhecer os sinais de uma perturbação como a de Wellington Menezes, o atirador da escola.
Um olhar atento a como as crianças ao nosso redor são educadas e seu comportamento em grupo são necessários, e nem sempre serão suficientes para evitar que casos como esse se repitam. A instalação de detectores de metal é apenas um remendo em uma mentalidade que deve ser reavaliada em busca de um modo de vida baseado no respeito mútuo – onde se deveria ver, por exemplo, um professor não como um empregado que deve se submeter aos caprichos dos nossos filhos pelo simples fato de colaborarmos com o pagamento de seu salário – seja com impostos, seja com o pagamento da mensalidade da escola particular. E sim como um parceiro (e não substituto) na educação de nossos filhos e de nós mesmos.
E isso vale no convívio social, inclusive o familiar. Os pais precisam aprender e ensinar a diferenciação entre respeito e medo, e a valorizar o primeiro na educação de seus filhos. Isso pode evitar traumas às crianças e aos colegas delas, que poderiam gerar mais episódios como os de Realengo.
Assim como nos últimos anos o mundo passou a ter um olhar mais atento aos sinais de pedofilia e a combatê-los em vez de tentar escondê-los da sociedade, é hora de nos inteirarmos e começarmos a prestar atenção nas tendências violentas (próprias e das pessoas ao nosso redor) e como elas se manifestam. E caso suspeitemos de psicopatia (incapacidade de ter emoções), procurar a ajuda adequada para que a pessoa em questão não se torne um futuro criminoso.
Nos Estados Unidos, há uma fascinação por pessoas com esse tipo de patologia, e há personagens célebres que são psicopatas – os chamados serial killers, ou assassinos em série. O mais célebre talvez seja Hannibal Lecter – um psiquiatra canibal que nos foi apresentado no filme O Silêncio dos Inocentes. O sucesso do filme – e do personagem – fez com que os produtores realizassem duas sequencias e, neste ano, um seriado baseado no personagem.
Há, também, um seriado baseado nas histórias da Unidade de Análise Comportamental do FBI, Criminal Minds (Mentes Criminosas). Uma equipe investiga casos de crimes praticados por pessoas  com essa tendência.
Dexter Morgan é um caso à parte. O personagem saltou da literatura para a telinha, por ter um característica inusitada: é um psicopata que mata seus iguais, devido ao treinamento e ao propósito de vida ensinados por seu pai, um ex-policial de Miami, que desde sua infância percebeu essa pendor em seu filho e tentou direcioná-lo para um “propósito maior”. Dexter é um anti-herói que caiu no gosto popular devido à ligação com o cowboy justiceiro do velho oeste.
E, mais recentemente, o seriado The Following. Trata-se de um seriado no qual um serial killer que foi professor universitário escapa da prisão e reúne um tipo de culto da morte. O ex-agente do FBI que o havia capturado é chamado para liderar uma força-tarefa para tentar recapturá-lo e prender os seguidores dele.
Além da ficção, que fornece material para identificarmos as características desse tipos de criminosos, temos as publicações de informação científica, como a Superinteressante e a Galileu, e especialistas (como psicólogos e policiais) a quem podemos recorrer para reconhecer uma pessoa com tal distúrbio, ou outros que possam causar conflitos.
Mas qual é a gênese desse problema e o quanto isso pode amenizar a responsabilidade sobre os atos de um sociopata ou psicopata? Diz-se que quando os problemas estão presentes na atual encarnação, são os traumas causados pelo abandono e pelo abuso, e que os obrigam a se fecharem como em uma concha emocional.
O fator educação é fundamental para evitar ou minimizar o surgimento de tais monstros. E como dito anteriormente, uma pessoa criada dentro de uma filosofia de respeito ao próximo terá, no mínimo, a semente plantada. Caso não coloque em prática o que recebeu dos pais, terá um despertar na espiritualidade que o fará perceber a oportunidade perdida.
Dentro desse processo, a noção de limites que uma pessoa pode ter é imprescindível. Sem a noção de que o nosso direito termina onde começa a do outro, ou seja, o que Jesus nos disse há dois mil anos: amarmos o próximo como a nós mesmos, teremos uma sociedade onde todos reclamam seus direitos, mas ignoram seus deveres.
Mas e quando não há uma razão aparente? De acordo com a ótica espírita, podemos levantar a hipótese do trauma ter se originado em encarnações anteriores e causado tal desejo de vingança que o espírito deixou de medir consequências e se importar com quem atingia. Uma outra possibilidade é a do ser ter adquirido o gosto (vício) de matar em encarnações anteriores, em épocas nas quais ser sanguinário era considerado digno de elogio. E, inconscientemente, a pessoa se apega a uma qualidade que o fazia ser estimado pelos seus iguais.
O rapaz que queimou a dentista é um psicopata, ou não? A maioridade penal deve ser adotada? E a pena de morte? Quem terá melhores chances de se arrepender dos atos praticados: o terrorista morto em Boston, seu irmão, o atirado de Realengo, as centenas de homens-bomba que morrem no Oriente Médio? E quanto ao menino que matou acidentalmente sua irmã no Estado do Kentucky?Quem sofrerá as piores consequências espirituais? Não tenho essas respostas, porque isso depende do íntimo de cada um.
Alterações na legislação serão suficientes para inibir tais crimes?  Depende do rigor empregado e da capacidade do Estado de prender os criminosos. Mas como vimos, depende também de uma reflexão da sociedade sobre os valores adotados atualmente, e se eles são adequados para garantir o que nós, espíritas sempre comentamos: a transição do planeta Terra de um mundo de provas e expiações para um de regeneração.
O espírito, como sabemos, não regride. Mas a legislação humana pode ter essa virada e atrasar a nossa viagem rumo a um mundo melhor.

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